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Evitar o diálogo, inclusive pelo telefone, está levando mais pessoas à justiça

Resolver um problema simples por telefone tornou-se, para muitos, uma tarefa quase impossível diante da insistência de se limitar a troca de mensagens, que às vezes, por serem mal redigidas, exigem decodificação. Em um mundo onde estamos conectados o tempo todo, as ligações são ignoradas e números desconhecidos viraram sinal de incômodo.

Esse comportamento tem uma justificativa compreensível: o aumento de golpes e o telemarketing agressivo fizeram com que as pessoas adotassem uma postura defensiva, evitando quaisquer contatos não identificados.

O problema é que essa precaução, quando levada ao extremo, gera um efeito colateral ruim: a dificuldade de resolver conflitos de forma direta. A comunicação foi substituída pela desconfiança, o que torna as relações mais difíceis.

O medo de atender o telefone

Hoje, muitos preferem tratar qualquer assunto exclusivamente por mensagens de texto. A ligação, que é o jeito mais rápido de resolver as coisas, passou a ser vista como um risco.

Entretanto, a escrita nem sempre é suficiente para lidar com temas delicados. Sem ouvir o tom de voz do outro, surgem mal-entendidos e brigas que poderiam ser evitadas em uma conversa de poucos minutos.

No dia a dia, especialmente entre vizinhos e em condomínios, a “mensagem no grupo” substituiu a conversa amigável. Com isso, pequenos problemas crescem em vez de serem solucionados.

Da Falta de Conversa ao Tribunal

Essa recusa em dialogar tem contribuído para um fenômeno cada vez mais presente: a judicialização de problemas simples. Questões que seriam resolvidas com um pedido de desculpas ou um ajuste rápido agora viram notificações, reclamações formais e, muitas vezes, ações judiciais.

No ambiente condominial, por exemplo, conflitos envolvendo barulho, uso de vagas ou pequenas divergências viram disputas judiciais desnecessárias.

A falta de diálogo impede soluções práticas e estimula arbitrariedades, onde cada um busca punir e responsabilizar o outro com pedidos de indenização por danos morais, que muitas vezes, não fazem o menor sentido.

O custo de não conversar

Evitar o contato direto pode parecer mais seguro, mas frequentemente torna a solução mais lenta, mais cara e mais desgastante.

O processo judicial, além de demorado, envolve custos financeiros e emocionais que poderiam ser evitados com um telefonema.

É preciso encontrar um equilíbrio entre manter a cautela contra golpes, mas não ignorar a conversa produtiva pelo telefone.

O resgate da comunicação e do bom senso

Viver exige disposição para ouvir, esclarecer e, sobretudo, resolver.

A tecnologia facilitou o contato, mas, paradoxalmente, piorou a qualidade da nossa comunicação e das interações. Recuperar o hábito de conversar, com respeito, segurança e bom senso, é o caminho para evitar conflitos desnecessários, conforme esclarecemos no artigo “Benefício da conversa presencial se perde no WhatsApp”.

No fim, muitos problemas que chegam ao Judiciário são resultado de impaciência, falta de gentileza e de uma conversa que deixou de acontecer quando ainda havia tempo e harmonia.

Confira a matéria completa no Jornal Hoje em Dia

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Kênio de Souza Pereira

Consultor Especial da Presidência da OAB-MG

Diretor da Associação Brasileira de Advogados do Mercado Imobiliário – ABAMI

Vice-presidente da Comissão Especial de Direito Condominial da OAB Federal

kenio@keniopereiraadvogados.com.br